domingo, maio 01, 2005

Filipinho e os Deveres de Religião e Moral

Aproximavam-se as férias da Páscoa no Colégio Católico onde o menino Filipinho de 12 anos era aluno. Os professores marcavam deveres para as férias aos alunos e a professora de Religião e Moral não poderia ser uma excepção. A Irmã Clotilde pediu aos alunos que elaborassem um texto sobre a validade literal da Bíblia Sagrada nos dias de hoje.
Filipinho como era muito crente e amava as Ciências Naturais, decidiu que provaria que muitas das narrações (contos e parábolas) da Bíblia não são tão inacreditáveis, como incrédulos afirmavam.
Joãozinho decidiu que iria provar, em parte, que o Dilúvio Universal podia ter ocorrido. Porém, este apresentava um inconveniente: Se ocorreu mesmo um Dilúvio Universal que cobriu toda a Terra por 40 dias e 40 noites , então todas as plantas deveriam ter sementes capazes de germinar depois de terem sido subergidas em água salgada, tal como deve ocorrer com todas as plantas nos dias de hoje. Filipinho também se lembrou que Noé enviou no final do Dilúvio uma pomba, que regressou com um ramo de oliveira ainda verdinho no bico. Como é que isso seria possível se as plantas estivessem todas mortas? Filipinho decide fazer uma abordagem cientifica.

Os passos da primeira experiência de Filipinho foram os seguintes:

1. Pegar numa planta da mãe e submergi-la por 40 dias e 40 noites em água salgada e fazer o mesmo com uma semente da mesma espécie de planta.

2. Registar as mudanças ocorridas diáriamente.

3. Realizar os passos anteriores com diferentes espécies de plantas.

Como Filipinho observou, as plantas estavam totalmente mortas no décimo-quinto dia e as sementes não germinaram. Filipinho não conseguiu compreender como é que a pomba que Noé enviou, depois de a levar um ano na Arca, pode regressar com um ramo de oliveira no bico. Ainda perplexo, Filipinho decidiu mudar de experiência.
Outro dos muitos problemas estabelecidos pelo Dilúvio Universal, é que Noé não colocou na Arca peixes. Dado que o dilúvio cobriu toda a Terra e água-doce e marinha se misturaram... É duvidoso pensar que os peixes de água-doce pudessem sobreviver a uma solução de água salgada. E o mesmo se pode dizer dos peixes marinhos em água com pouca quantidade de sal.

Os passos da segunda experiência de Filipinho foram:

1. Comprar dois aquários: Um com peixes de água salgada e outro com peixinhos de água doce.

2. Num terceiro aquário juntar as duas águas, levando em conta que a água salgada deveria constituir a grande maioria no Dilúvio (assim está distribuída a água do planeta).

3. Introduzir os dois tipos de peixes no aquário.

4. Observar e anotar os resultados.

Felizmente, Filipinho ao ver os peixinhos a flutuar na superfície, não pensou que se tratasse de peixes a caminhar sobre á água, como Jesus Cristo a caminhar sobre o mar da Galileia... Decidiu ler mais sobre a regulação osmótica dos peixes de águas doce e salgada. Porém, Filipinho ouviu a sua professora dizer que o que se lê na Bíblia tem que se crer com muita Fé e vai daí decidiu fazer uma terceira experiência. Ao final das contas tinha que escrever uma composição nas férias.
Filipinho lembrou-se de uma das histórias bíblicas narradas pela sua professora: A de Gênesis 30, aquela que o Patriarca Jacó apostou com seu sogro que ele receberia por muitos anos de trabalho todas as ovelhas com manchas, enquanto que Labán, seu sogro, ficaria com as ovelhas de tons escuros. Filipinho lembrou-se que Jacó havia descascado ramos verdes de álamos, avelãs e castanhas e as colocou na frente das ovelhas para que parecessem ovelhas com manchas e desta maneira criar uma fraude e ficar com o maior rebanho.
Filipinho decidiu que esta maneira simples de determinar o fenótipo de um mamífero poderia ser feita em casa, Todavia ter ovelhas em casa traria-lhe sérios problemas com a mãe, além de que a gestação demoraria muito tempo. Por isso, decidiu simplificar a experiência utilizando em vez de ovelhas cobaias de laboratório. Para conseguir os ramos verdes de oliveiras, castanhas e avelãs, teve que cometer um pequeno furto no jardim botânico da cidade. Quando chegou a casa, colocou os ramos em frente ao bebedouro dos ratinhos brancos numa caixa que construi para o efeito. (Tal como fez Jacó com as ovelhas). Depois que as cobaias deram suas crias, as varas não provaram ser eficazes. O resultado obtido assombrou Filipinho: A experiência levou-o a aceitar as hipóteses nulas (a cor da pelagem não se alterou por passar fêmeas de mamíferos sobre ramos verdes cortados de álamos). Como os ratos não nasceram como previa a Santa Escritura, Filipinho decidiu ler sobre os genes. As suas dúvidas sobre a exactidão da Bíblia cresceram ainda mais.
Filipinho já farto de experiências desastrosas decidiu pesquisar na internet alguns artigos sobre zoologia que pudessem confirmar o que está escrito na Bíblia, logo Filipinho foi ao capítulo 11 do livro de Levítico, que contém a maior lista de animais de toda a Bíblia. Que grande surpresa teve este garotinho pesquisador quando encontrou os morcegos mencionados como aves e além disso está escrito que os insectos têm 4 patas, quando na verdade possuem 6 patas.
Por outro lado, qualquer tentativa em combinar a Bíblia com a Astronomia foi destruída quando leu sobre o Sol no Salmo 19: "Alegra-se o gigante ao percorrer seu caminho. De um extremo dos céus à sua saída, e seu curso ao término deste.." E como Filipinho sabia que a Terra se move ao redor do sol, e não ao contrário, decidiu deixar de fazer seus experiências.
De regresso às aulas, a Irmã «Cló» quase morre de enfarte ao ler o seguinte texto em forma de carta:

Estimada Professora:
Estraguei as plantas e sementes favoritas da minha mãe e vi morrer alguns peixinhos tentando demonstrar que o Dilúvio descrito na Bíblia não é contraditório com os factos. Também infestei a casa com ratos (escaparam da caixa de papelão quando já eram muitos) ao tentar obter ratos manchados a partir de ratos brancos, depois de fazê-los passar debaixo dos ramos de álamos, avelãs e castanhas, tal como fez o patriarca Jacó com as ovelhas.
Fiz tudo isso sem conseguir demonstrar nada, excepto que é "altamente provável" que a Bíblia seja apenas o lucro literário de um monte de criadores de cabras do deserto, que não tinham a menor idéia se os morcegos são mamíferos ou aves, e que o Sol não passeia "alegre e gigante" ao redor da Terra. Por isso elaborei uma lista de 10 recomendações sobre os usos actuais que você pode dar a sua Bíblia.
(Nota: Estes 10 usos também são aplicáveis ao Al Corão, o Livro dos Mormóns e similares.)
1. Reciclá-la. Limpe o Planeta.
2. Arrancar as páginas e cobrir o fundo da gaiola do seu canário.
3. Utilizá-la molhada para alimentar lombrigas vermelhas californianas; estes anelídeos a transformaram em algo mais útil e ecológico: Adubo orgânico.
4. Rasgar as partes religiosas e morais e só ler as partes pornográficas, como Ezequiel 23.
5. Distribuir bíblias no Iraque e no Afeganistão... Mas depois corra para se salvar.
6. Escreva comentários apropriados e excepções, sublinhe as inúmeras partes raras, e ilustre as passagens mais bizarras. Imprima e distribua estas bíblias nas igrejas, hotéis e bibliotecas. Para começar sugiro sublinhar de vermelho e ilustrar Salmos 137:9 "Feliz eu tomarei e destacarei seus filhos com uma pedra".
7. Se você tem duas Bíblia de capa grossa e duras, use-as para patinar. Ate-as bem presas com um cordel forte à volta dos joelhos. (Especialmente se forem patins-em-linha, você pode querer fazer manobras radicais e não quer estragar uma coisa tão preciosa como os joelhos).
8. Utilize a Bíblia como suporte para copos.
9. Atire-a a rotwaillers, boxers, pastores alemães e labradores para que fortaleçam as suas mandíbulas. Assim fará deles animais muito felizes.
10. Se alguma vez andar com a sua Bíblia em uma noite fria e lhe der calafrios e hipotermia, queime-a! Quem disse que a Bíblia não a pode salvar?

Atenciosamente:
O aluno céptico, Filipe Vasconcelos
.

1 Comments:

Blogger Sergy disse...

A irmã Clotilde é muito santinha...se forsse a Soror Leonora Galigai, até era capaz de achar piada.

1:13 da tarde  

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